25 de jan. de 2014

O suco em pó

O suco em pó de uma fruta que não é fruta. Você sente o aroma, o sabor (mais o aroma do que o gosto), vê a cor, a densidade. Parece goiaba. A embalagem diz até que tem 3% de goiaba de verdade. você bebe e pensa: parece goiaba!

No finzinho um gosto diferente, escondido, quase imperceptível. Pode-se facilmente fazer de conta que ele não existe, mas está lá e se você quiser poderá admitir: não é goiaba. Mata a sua sede, mata a sua vontade de saborear uma goiaba, mas não é goiaba.

Há algum tempo ouvi o Mario Sergio Cortella falar sobre a artificialidade das coisas e o quanto elas tomaram papel na nossa vida. Olha-se uma planta verdadeira e diz-se: puxa, é tão perfeita que parece de plástico.

A  novela que mostra uma vida que não é a de quem está assistindo. É sempre uma projeção do que o autor presume que os espectadores gostariam que fosse. Para o bem e para o mal. Realizam-se os egos e frustrações nos capítulos. Ri-se, ridiculariza-se, ama-se o que não se pode  ou não se quer fazer na vida real.

Os outdoors, as vitrines, as revistas, as datas comemorativas, os modismos, induzem as pessoas a um modelo de vida, que não é modelo de coisa nenhuma a não ser o do consumismo, uma roda que gira perpetuamente para perpetuar quem vende alguma coisa.

E vamos inadvertidamente construindo nossas vidas com esses milhares de pacotinhos de suco que não é suco. O suco de verdade está fácil ali na árvore, ou no mínimo, ali na banca de frutas. Mas para não perdermos tempo precioso que precisamos gastar com os pacotinhos de vida artificial que nos rodeiam e fascinam à farta, e nos dão um prazer de viver com 3% de extrato de vida (e não está escrito nas embalagens, esta vem dizendo que é vida pura); pois bem, para beber vida em pó, precisamos de  mais vida em pó.

Aí esquecemos o sabor natural das coisas. A alegria de sentir o ar entrando nos pulmões, a sensação da sola do pé tocando o solo, a graça e o prazer de pensar seja no que for, de olhar-se e ver-se, de querer simplesmente e sabendo para que e por quê se quer.

Você pode até passar a existência bebendo dos infinitos pacotinhos que o mundo oferece, mas deveria saber o que está bebendo e que a vida oferece o sumo natural dela mesma; apenas te deixa a vontade para que você um dia avalie e descubra o que é vida 100% vida e o que contem 3% de extrato e aromatizantes.





23 de jan. de 2014

Altos e Baixos

Quem me conhece (é apenas uma hipótese) percebe nitidamente altos e baixos nas coisas que faço. Momentos de depressão e profundo desânimo, depois etapas de confiança e determinação. Essa é a vida de uma psicótico maníaco-depressivo, que hoje tem um nome mais bonito - ninguém quer ter psicose e ser psicótico (mas acredite, todos tem e são),  agora temos transtorno bipolar do humor e quase todas as pessoas um pouco esclarecidas  acham  que você acorda um cocô e vair dormir Deus, ou vice-versa. Os que estão apenas fisicamente no planeta acham no máximo que você funciona em 110 e 220v.

Na verdade a fase cocô dura bastante tempo, depois vem a fase Deus ou semi-Deus, dura outro tanto e faz um estrago tremendo, aí vem a fase cocô de novo e você vê o estrago que fez na fase Deus e entra na fase cocô mole. E vai...

Tem casos bem conhecidos de pessoas que fizeram o maior estrago financeiro em suas vidas durante a fase maníaca, pois você sente-se poderoso, capaz de tudo, qualquer risco é possível de se assumir, é uma devastação, e você é etiquetado como irresponsável, boa vida, malandro, golpista, e por aí vai.

Depois, como disse, de repente, num belo dia do seu império universal, você acorda sentindo-se o ser mais abjeto da face da terra, e seus súditos depositaram uma pilha de boletos e carnês, cheques sem fundos, as pessoas não acreditam ou confiam mais em você, e isso te faz sentir um pouco, ou muito se for possível (sempre é) pior. Bactéria do cocô do verme do cocô do cavalo do bandido.

Existe tratamento, e geralmente quando você está quase completamente destruído moral e mentalmente, um dia você decide ir ao psiquiatra - coisa que todos relutam em fazer, afinal, psiquiatra é médico de louco e eu não sou louco.

Facilmente, em duas ou três semanas ninguém mais sabe onde foram parar aqueles dois sujeitos que andavam com você, o picareta e o suicida. Sumiram. Qual a mágica? antidepressivos, de preferência de terceira geração, e quando a pessoa não tiver alguma rejeição, carbonato de lítio. Pronto.

Acabou o problema? Sim, enquanto você tomar o medicamento, e por vezes, muitas vezes, será pela vida inteira, se parar, a dupla volta.

Mas a psicoterapia pode ajudar bastante a amenizar o surgimento de novos surtos, por abordar o interior psíquico da pessoa, e resolver, ressignificar acontecimentos causadores de traumas e mecanismos inconscientes de defesa.

De qualquer forma, pelo que tenho revivido ultimamente, aconselharia pais e adultos em geral que repensassem seus comportamentos quando próximos a crianças, pois aquelas cabecinhas estão registrando tudo o que se passa à sua volta, e muitas vezes causando estragos que acompanharão a pessoa por muito tempo de sua vida.